Programa pioneiro sobre Games e Cultura Nerd em Minas, Gigaboom estreou há 18 anos

Projeto de jovens nerds dos anos 90, ligados em jogos e internet no tempo da BBS, o Gigaboom era uma proposta engraçada e nonsense para falar ao público da época sobre as novidades geeks - Por Kao Tokio

Nos idos de 1996, ainda na época da internet movida a modems de 14k, um grupo de jovens se uniu em Belo Horizonte para lançar o piloto de um dos primeiros programas da tv brasileira sobre games e cultura nerd, o Gigaboom, projeto que unia informações sobre o univeso da tecnologia emergente e jogos de carta, RPG e games, com muita irreverência. O Play’n’Biz conversou com Ronaldo “Tank” Gazel e Marco “Cartucho” Aurélio, dois dos integrantes do antigo projeto, que3 resgataram histórias da produção, entre risadas e saudosismo.

Abaixo, os principais trechos do bate papo:

Play’n’Biz – O que era o programa GigaBoom? Qual a proposta do projeto?

Ronaldo Gazel (Tank) – GigaBoom é um programa-piloto com três blocos de 15 minutos, criado e produzido em 1996, que tratava de assuntos um tanto à margem da midia daquele tempo, especialmente a televisiva. Os temas eram: RPG / Card Games, BBS/Internet (que era uma novidade em 1996), e principalmente: videogames; os atores eram amadores, um grupo de amigos que se reuniam para bolar os roteiros, piadas, escolher os sistemas e os jogos mais relevantes e depois gravar as cenas. O GigaBoom misturava walkthroughs de jogos com sketches humorísticos completamente nonsense, tais como receita de sorvete de piranha, enquanto ninjas de aluguel anunciam seus serviços.

P’n’B – De onde surgiu a ideia de produzir esse programa?

Ronaldo Gazel e Marco Aurélio Martins

Ronaldo Gazel e Marco Aurélio Martins

RG – Àquela época, Cacaio (José Carlos Senra) era diretor de um canal de TV em Belo Horizonte. Ele fez uma visita à agência de publicidade da qual eu era sócio com meu tio, João Gazel, e nos estimulou a produzir conteúdo para o público nerd. Eu logo disse que tinha uma turma de amigos tão malucos que poderíamos, juntos, criar um programa de TV que tivesse um conteúdo relevante. E assim iniciamos.

P’n’B – O programa tinha uma produção caprichada, com estúdio, vestuário, boa iluminação e edição. Havia uma produtora por trás do projeto?

RG – Resolvemos investir alguma grana no projeto. A agência, chamada Equipe de Criação, não era muito lucrativa, praticamente sobrevivíamos. Mas ainda assim fomos com tudo, dentro das nossas condições, é claro. Contratamos uma ótima produtora executiva, Laís Khoury, que foi imprescindível para que o projeto acontecesse da forma planejada. Ela nos ajudou a montar uma proposta comercial, com a qual batemos à porta do SSV – Sistema Salesiano de Video para propor uma parceria. Eles toparam! E assim, passamos a contar com moderníssimos equipamentos de gravação em BETACAM e ilhas com VideoMachine (Windows 3.1), além de câmeras consagrados como Manga e o diretor Rômulo Breda, conhecido como Rominho, que embarcaram de corpo e alma no projeto! No clip “pare o casamento”, logo nos minutos finais do programa, tivemos o uso de gruas e storyboards de alto detalhamento, como numa superprodução. Foi incrível.

P’n’B – Como eram as gravações do programa?

MA – Nós mesmos fazíamos os roteiros, escritos em conjunto, em reuniões com muita bagunça e produtividade. Eles eram feitos sempre em cima de alguma piada interna. Tudo ali era novidade e todos estavam expondo sua imagem ali, não eram personagens, exatamente o que cada um era na época.

RG – As gravações eram incrivelmente divertidas, transformávamos até os erros de gravação em conteúdo, era tudo muito legal e tínhamos certeza de que as pessoas iriam achar aquilo, no mínimo, engraçado pra cacete!

P’n’B – O programa chegou a ser apresentado em tv aberta? O que aconteceu?

RG – Levamos o programa para vários canais de TV, e em todos eles a resposta era a mesma: “isso é moderno demais pra nós!”. Infelizmente essa era a realidade, o programa tinha um ótimo potencial de anunciantes, mas os diretores de programação não tinham coragem (assim como hoje) de colocar conteúdo desse tipo na grade. O único canal que se dispôs a passar o programa era o próprio canal do Multicanal, que ficava passando programação o dia todo. Mas isso já não interessava e nem daria dinheiro suficiente para continuarmos a produção. Assim, desistimos. Não houve como continuar com a proposta, já que não havia veículos dispostos a aceitar o programa, infelizmente.

P’n’B – O grupo estava muito à frente de seu tempo na proposta idealizada?

MA – O que mais me deixa empolgado é ver que, mesmo depois de 18 anos, a nova geração de gamers, nerds e todos aqueles que gostam deste universo ainda veem ele como uma coisa inovadora, com alguns até pedindo pelo retorno do programa.

Cenas do programa de tv Gigaboom

Cenas do programa de tv Gigaboom

P’n’B – Como a equipe resolvia as necessidades de produção?

MA – As gravações eram feitas no SSV (Sistema Salesiano de vídeo), na Pampulha, e ficava bem distante da casa de todos, então resolveram fretar uma kombi para levar todos para o estúdio. Todos nós achávamos o máximo tudo aquilo, mesmo sendo às 6:30 da manhã. Os videogames eram alugados de uma locadora que ficava na Savassi e ficava por nossa conta levar e entregar o jogo, e até os cabos necessários para ligar na mesa era a gente mesmo que fazia. Para as roupas, fizemos uma busca que fizemos nos brechós da cidade e muitas foram levadas de casa. Eu não poderia deixar de citar a “Sininho” que o Arnon fala em uma das cenas, uma produtora que colocou todos os marmanjos aos seus pés. Ah claro, teve que rolar uma dose de cachaça antes de eu me vestir de mulher né….hoje eu faria tudo novamente.

RG – No dia em que fomos apresentar o projeto para os padres do SSV, toda a trupe foi junto para mostrar suas respectivas nerdices. Achamos que iríamos assustar os padres, mas foram eles que nos assustaram, ao dizer que precisaríamos mudar uma coisa no programa. Perguntamos: “o que seria?”. Eles responderam: “Mulher! Tem que colocar mais mulher, tem cueca demais aí!”. E assim colocamos a Sininho (Luciana Terra) no programa.

P’n’BO programa era inovador demais para as emissoras na época?

MA – Podemos considerar que fomos um ‘Casseta e Planeta que escolheu um tema muito difícil de decolar. Mas tenho certeza que qualquer um de nós que falar do projeto vai falar com a mesma intensidade e satisfação.

Se veiculado, o Gigaboom prometia ser um programa que amadureceria, falando a linguagem da garotada da época com muita informação e divertimento. O registro do programa, ainda hoje disponível em vídeo no YouTube, demonstra a importância de converter ideias inovadoras em um projeto concreto, mesmo que público e mídia não pareçam necessariamente prontos para tais criações. Os participantes do piloto, comforme indicado pelos criadores foram: Arnon Cardoso (Prof. Zero Byte/Salsicha), Marco Aurélio Martins (Cartucho), Lupércio (como ele mesmo), Israel dos Santos Paixão Jr. (Brêafs/Comando Ninja Gustavo Bracher), Lestate Raoni Guerra (Apache Kid), Ronaldo Gazel (Tank), Andrey Tsushima (Xina), André Morato (Chico Byte) e Luciana Terra (Sininho).
Os 3 blocos do programa estão disponíveis em:

Parte 1 – Youtube.com/watch?v=OJM3EDwWMwE,

Parte 2 – Youtube.com/watch?v=Rmp_dbrzvlU e

Parte 3 – Youtube.com/watch?v=SNzhUFPaYbg.

Sobre Kao Tokio
Editor de conteúdo do site Play'n'Biz - Pesquisador de novas mídias e entretenimento digital como linguagem e expressão da cultura contemporânea

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